Morador de rua em Barra Mansa reencontra família após 47 anos

Uma história comovente e de reencontro com as raízes. Foi assim que terminou o domingo para Antônio Carlos Albino. O senhor, de aproximadamente 58 anos, estava em situação de rua há pelo menos 40 anos. Tudo começou quando ele morava com os pais e os dois irmãos em Cachoeira Paulista, no interior de São Paulo, distante 100 km de Barra Mansa. Sua mãe faleceu e os irmãos ainda bebês foram adotados por outras famílias. Ele então veio com seu pai morar em Barra Mansa. Logo depois, o pai morreu assassinado. Sem ninguém para lhe auxiliar e amparar, só lhe restou uma alternativa: a rua.

Mas engana-se quem pensa que ele não formou amigos durante esse tempo. Depois de perambular por diversos lugares da cidade, encontrou no bairro Vila Ursulino mais que amigos, uma verdadeira família. O advogado José Claudio foi um dos primeiros a oferecer abrigo ao Toninho, como era mais conhecido. Ele conta que mesmo diante das dificuldades da vida, Toninho não perdia a alegria e o brilho nos olhos. “Ele sempre foi muito humilde e educado. A rua tirou sua dignidade, mas não lhe roubou os valores familiares. Por isso, ele tinha sempre acesso à minha casa e fomos construindo um vínculo familiar”, completa.

O advogado destaca que a ligação entre eles ia muito além do auxílio com alimentação e moradia. “Muitas das vezes eu estava andando na rua e trocava meu itinerário, na hora eu não entendia o porquê. Mas logo ao virar a esquina, eu encontrava o Toninho precisando da minha ajuda. E isso aconteceu diversas vezes em vários locais diferentes. Nossa relação foi além dos laços da amizade, foram ligadas espiritualmente”, destaca.

Outra moradora do bairro e que também o ajudou durante essas décadas foi a Dona Ana de Souza Borges, de 65 anos. Ela conta que Toninho era sempre muito prestativo e era tratado como filho pelos demais moradores. “Ele é um pessoa muito boa. Sempre respeitoso e prestativo. Todos os dias ele vinha almoçar e tomar banho. Ele sempre foi muito livre e não gostava de incomodar. Por isso, resolveu morar na caçamba de um caminhão que tinha na rua”, diz.

Mesmo sendo bem cuidado pelos moradores do bairro ao longo desses anos, Antônio Carlos nunca se esqueceu de sua família. O advogado José Claudio conta que ele sempre falava que queria reencontrar seus irmãos. Foi aí que os amigos resolveram procurar ajuda e encontraram o Centro Pop (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua), da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos de Barra Mansa. Dirigido pela secretária Ruth Coutinho e coordenado pela Edilene Oliveira, a equipe começou um processo de investigação à procura dos familiares.

Durante o cadastro no Centro Pop iniciado no dia 13 de setembro desse ano, Seu Toninho passou por exames médicos que diagnosticaram um comprometimento neurológico e outras doenças como diabetes, pressão alta, hérnias abdominais e alcoolismo. Além disso, o morador de rua teve seus documentos de identidade emitidos e iniciado o processo de inscrição no BPC (Benefício de Prestação Continuada) para que ele começasse a receber o benefício para se manter financeiramente. “Mesmo com o comprometimento neurológico, ele sempre falava que andava e não encontrava seus irmãos em Cachoeira Paulista. Saber o lugar de origem nos ajudou bastante para traçar um rumo na investigação”, explica a coordenadora do Centro POP, Edilene Oliveira.

A partir desse ponto, a equipe formada por psicólogos e assistentes sociais entrou em contato com os órgãos responsáveis por esse assunto como CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) e CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) da cidade de Cachoeira Paulista para auxiliar na procura aos familiares. Outro ponto de contato foi o Posto de Saúde da Canção Nova, com sede na cidade, que começou a divulgar nas rádios à procura pelos irmãos de Antônio Carlos Albino. “Após o anúncio, o irmão que ainda mora na cidade e a irmã que mora em Pindamonhangaba procurou a rádio e entrou em contato conosco dizendo que também estava há anos procurando seu irmão mais velho”, destacou Edilene.

Nesse momento, chegava ao fim uma história de sofrimento na rua em busca de um lar. O irmão queria levá-lo para Cachoeira Paulista, mas não tinha condições de transporte. A Secretaria de Assistência Social resolveu então disponibilizar o transporte de Barra Mansa até a cidade paulista. Os moradores ficaram felizes com a notícia e resolveram promover uma festa de despedida no último sábado, dia 21. “Para nós vai ser uma tristeza, mas é muito importante que ele encontre uma parte de sua família e reconstruir esse elo”, disse emocionada Dona Ana de Souza. O advogado José Claudio disse que continuará mantendo contato com Toninho. “Vamos tentar preservar essa ligação que foi construída nesses 40 anos. Vamos sentir falta dele, mas estar junto da família é indispensável”, conclui.

No domingo de manhã, dia 22, Seu Toninho estava ansioso para rever o irmão e os sobrinhos que não conhecia. “Eu estou emocionado porque tem muito tempo que não vejo minha família. Agradeço por tudo que meus amigos em Barra Mansa fizeram por mim. Acolheram-me, cuidaram e me trataram como parte da família”, destacou. Depois de 47 anos, o tão esperado reencontro foi marcado pela emoção e alegria de rever o irmão que estava perdido. Agora, a família está completa.

A secretária de Assistência Social e Direitos Humanos de Barra Mansa, Ruth Coutinho, explicou a demora na resolução desses casos de moradores em situação de rua. “Antes de tudo, é preciso respeito, pois estamos lidando com vida humana. É necessário entender os motivos que levam a pessoa a morar na rua e criar um vínculo afetivo através de serviços como o Centro Pop. Através de técnicas com psicólogos e assistentes sociais vamos buscando solucionar os casos. É um trabalho demorado, mas que vale muito a pena quando conseguimos conscientizar esse morador da importância de estar perto da família”, diz.

De acordo com o coordenador de Assistência Social, Alexandre Martins, o trabalho apesar de ser recompensador, é difícil e requer tempo e dedicação. “Nosso intuito é inserir essas pessoas na sociedade e reintegrá-los na família. Quando eles aceitam sair das ruas é uma vitória muito grande, mas é preciso muito esforço de toda a equipe”, comenta. Para a coordenadora do Centro Pop o sentimento é de dever cumprido. “Terminar essa história com o reencontro dos irmãos me deixa muito alegre. É um trabalho de equipe disposta a solucionar esse problema. Seria muito bom se conseguíssemos fazer por todos, mas depende muito do morador em situação de rua”, finaliza.

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